A União Europeia (UE) está em estado de alerta máximo perante os recentes desenvolvimentos geopolíticos que sinalizam uma potencial reorganização do poder global. A participação de líderes do Irão, da Rússia, da China e da Coreia do Norte num desfile militar em Pequim e na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCS) acendeu um sinal de alarme em Bruxelas.
A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, não hesitou em classificar o grupo como uma “aliança autocrática” que desafia abertamente a ordem internacional baseada em regras, representando um “desafio directo” ao sistema internacional.
A Consolidação da “Aliança Autocrática”
O evento que mais preocupou os ocidentais foi o desfile militar em Pequim, que reuniu os presidentes da China, Rússia, Irão e Coreia do Norte. Esta não foi apenas uma exibição de poderio militar, mas um statement geopolítico cuidadosamente orquestrado. A presença simultânea destes quatro líderes – particularmente do presidente iraniano, num contexto de crescentes tensões nucleares – envia uma mensagem clara de coordenação e desafio à ordem ocidental dominante.
A Organização de Cooperação de Xangai (OCS), que acolheu a sua cimeira em Tianjin no final de Agosto, fornece a estrutura institucional para esta convergência de interesses. O organismo, que inclui também a Índia entre os seus membros, demonstrou a sua capacidade de servir como uma plataforma de coordenação alternativa às instituições lideradas pelo Ocidente.
A Reacção da União Europeia
Kaja Kallas afirmou que os altos responsáveis chineses, russos, iranianos e norte-coreanos formam uma “aliança autocrática” que procura uma forma rápida de criar uma nova ordem mundial. Perante a imprensa em Bruxelas, a chefe da diplomacia europeia deixou claro que este encontro não envia apenas “sinais anti-ocidentais”, mas representa também um desafio directo ao sistema internacional.
A presença da Índia na cimeira, num momento de relações tensas com Washington, é particularmente vista como um sinal do crescente afastamento de Nova Deli do Ocidente e da sua abertura a uma maior cooperação com Pequim.
Um Mundo Multipolar
Analistas já tinham feito notar que a ordem mundial já não é determinada por um único país e que o mundo se tornou multipolar com a presença de potências como a China e a Rússia. Muitos citam as ameaças alfandegárias americanas contra a Índia como uma das principais razões para a reaproximação entre Nova Deli e Pequim.
Ao pressionar o seu aliado de longa data, os Estados Unidos podem, inadvertidamente, ter aberto o caminho para uma cooperação mais estreita entre a Índia e a China, o seu rival tradicional. Este realinhamento é um exemplo claro de como as acções unilaterais podem acelerar a formação de alianças alternativas e contribuir para a fragmentação da ordem global.
Conclusão
O receio europeu é compreensível, mas reflecte uma realidade geopolítica que já mudou. A questão para a UE já não é como prevenir o surgimento deste bloco alternativo, mas como navegar num mundo onde múltiplas esferas de influência coexistirão – e frequentemente entrarão em conflito. A ordem multipolar não é uma ameaça futura; é a realidade do presente.






