Há uma imagem recorrente que, qual erva daninha, teima em florir no imaginário coletivo: a de um continente africano perpetuamente à beira do abismo, incapaz de se governar, dependente da “mão firme” e “experiente” do Ocidente para sobreviver. É uma narrativa antiga, com cheiro a naftalina e mapas cor-de-rosa, mas que, espantosamente, encontra novos arautos a cada crise.
A notícia, vinda da Nigéria, é, à partida, inócua: cerca de 1000 militares americanos chegaram ao país para formar e aconselhar as forças locais na luta contra os insurgentes islamistas. Uma ação de treino, uma parceria, algo comum nas relações internacionais. Mas, isolada do contexto, esta informação pode servir de combustível para uma pergunta que, à primeira vista, parece provocadora, mas que encerra um preconceito profundo: Será que 54 países africanos não têm homens suficientes, que são precisos 1000 americanos para virem salvar o continente?
A pergunta, ainda que exagerada na sua generalização, choca pela sua essência. Ela não questiona a capacidade logística, a diferença tecnológica ou o valor estratégico de uma parceria militar. Ela questiona a própria masculinidade, a própria humanidade de um continente. Como se a África fosse uma criança grande e desamparada, esperando no cais pela chegada do “adulto” salvador.
Vejamos o caso concreto da Nigéria. Estamos a falar da maior economia de África, um gigante demográfico com mais de 200 milhões de habitantes, com um exército de dezenas de milhares de soldados. O país enfrenta, é verdade, o flagelo do Boko Haram e do Estado Islâmico na África Ocidental, grupos terroristas que há anos aterrorizam populações no nordeste do país.
A questão não é se a Nigéria precisa de ajuda. Precisa. A comunidade internacional tem o dever de cooperar no combate a um terrorismo que é uma ameaça global. A questão é como essa ajuda é apresentada e, mais importante, como é interpretada.
Reduzir a presença de 1000 militares americanos a um ato de “salvação” é um insulto à memória dos milhares de soldados nigerianos e dos países vizinhos (Camarões, Níger, Chade) que tombam diariamente nesta luta. É ignorar o esforço hercúleo de inteligência, de logística e de sacrifício humano que as forças locais empregam, muitas vezes com equipamento obsoleto e num terreno que conhecem como a palma das suas mãos. 1000 americanos não fazem uma guerra; podem, quando muito, ajudar a torná-la menos desigual em meios. Mas quem a trava, no terreno, dia após dia, são os homens e mulheres africanos.
Esta narrativa do “salvador branco” (ou “ocidental”) é particularmente perigosa por três razões:
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Desumaniza o “outro”: Ao pintar os africanos como eternos recipientes passivos de ajuda, apaga-se a sua agência, a sua coragem e a sua capacidade de resolução de problemas. Um soldado nigeriano que morre numa emboscada não é um herói a defender o seu povo; é apenas uma estatística na longa lista de “incapazes” que precisavam de um americano para lhes mostrar o caminho.
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Branqueia a História: Esta visão ignora convenientemente o papel histórico de muitas potências ocidentais (incluindo Portugal, numa outra era) na criação dos próprios problemas que hoje afligem o continente. As fronteiras artificiais, a exploração de recursos e o desrespeito pelas estruturas políticas locais são, em grande parte, a semente de muitos conflitos atuais.
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Alimenta um ciclo de dependência: Ao perpetuar a ideia de que as soluções vêm sempre de fora, enfraquece-se a confiança nas instituições e nas lideranças locais. Ajuda-se, ainda que inconscientemente, a consolidar a ideia de que, sem a bênção ou a intervenção de Washington, Bruxelas ou Paris, o caos é inevitável.
Claro que há fragilidades. Claro que há Estados frágeis, exércitos com problemas de corrupção e governações que falham redondamente. A Nigéria, como qualquer outro país, tem os seus próprios demónios internos para resolver. Mas há uma diferença abismal entre criticar essas falhas e usar um copo de água para negar a existência do oceano. O problema não são os 1000 militares; é a lente através da qual escolhemos vê-los.
A chegada de 1000 militares americanos à Nigéria não é a prova da incapacidade africana. É, isso sim, um reflexo de um mundo globalizado e interdependente, onde a segurança é um bem comum. O que deve merecer a nossa reflexão é a persistência de um olhar que, mesmo sem querer, continua a ver a África não como um continente de soluções, parceiros e protagonistas, mas como um palco permanente para os dramas e heroísmos alheios.
Talvez a pergunta mais acertada não seja “quantos homens vêm de fora para salvar África?”, mas sim “quando é que o mundo vai finalmente reconhecer os homens e mulheres que, em África, todos os dias, salvam o seu próprio futuro?”.






