Nemesio Oseguera, líder do violento Cartel de Jalisco, foi abatido durante uma operação militar no estado de Jalisco. Os EUA consideravam a organização uma entidade terrorista.

O governo mexicano anunciou este domingo a morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho”, líder do poderoso Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG). Considerado um dos narcotraficantes mais procurados do mundo, “El Mencho” foi abatido durante uma operação militar na localidade de Tapalpa, no estado de Jalisco, oeste do país.

Segundo um comunicado do exército mexicano, o líder do cartel foi atingido durante o confronto e acabou por não resistir aos ferimentos, falecendo “durante o seu transporte por via aérea para a Cidade do México”. A operação surge como um golpe significativo contra o CJNG, uma organização classificada como terrorista pelos Estados Unidos em 2025.

Com 59 anos, “El Mencho” era visto como o último dos grandes barões da droga mexicanos, numa altura em que os líderes do histórico Cartel de Sinaloa, Joaquín “El Chapo” Guzmán e Ismael “Mayo” Zambada, se encontram presos nos EUA. As autoridades mexicanas e norte-americanas ofereciam uma recompensa que ascendia aos 15 milhões de dólares por informações que levassem à sua captura.

Violência em retaliação

Horas antes do anúncio oficial, homens armados terão colocado vários veículos e camiões em chamas em diversas estradas do estado de Jalisco. Este tipo de ação, de acordo com as autoridades locais, é uma tática comum utilizada pelos cartéis para dificultar as operações das forças de segurança quando estas visam alvos de alto valor. As autoridades locais chegaram mesmo a recomendar à população que permanecesse em casa.

A instabilidade na região levanta preocupações adicionais, uma vez que o estado de Jalisco é uma das sedes previstas para acolher jogos do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026.

Um líder violento e um cartel global

O Cartel Jalisco Nova Geração, fundado por “El Mencho” em 2009, é descrito pelo Departamento de Estado dos EUA como uma organização “transnacional, presente em quase todo o México”, estando envolvida não só no tráfico de drogas como cocaína, heroína, metanfetamina e fentanil, mas também em extorsão, tráfico de migrantes, roubo de combustível e minerais, e comércio ilegal de armas.

Em declarações à agência France-Presse, o escritor e especialista em narcotráfico José Reveles traçou o perfil de “El Mencho” como um homem de “natureza violenta”, que não hesitava em confrontar diretamente as autoridades. Um dos exemplos mais marcantes dessa ousadia ocorreu a 20 de junho de 2020, quando o cartel lançou um ataque sem precedentes contra Omar García Harfuch, atual secretário federal da Segurança Pública, que na altura chefiava a polícia da capital. O atentado, que vitimou duas pessoas, feriu García Harfuch.

Reveles explica ainda que, durante muito tempo, “El Mencho” não conseguiu rivalizar com os cartéis que controlavam a fronteira com os EUA, tendo-se virado para mercados alternativos. “A Europa, a Ásia, a África e até a Austrália eram menos disputadas pelos mexicanos, e lá a droga é paga mais cara”, afirmou o especialista, destacando a perspicácia do narcotraficante em explorar novas rotas.

Apesar do seu poder, “El Mencho” era uma figura enigmática. “Fazia muita questão de não se expor publicamente, sabe-se pouco sobre a sua vida”, acrescentou José Reveles. O seu aspeto físico, imortalizado em cartazes de procurado, variava entre um rosto angular e bigode fino numa foto mais recente do Departamento de Estado, e traços mais grossos e cabelo encaracolado numa ficha da DEA de 1989.

A morte de “El Mencho” representa uma vitória para as forças de segurança mexicanas e norte-americanas, mas a violência ligada aos cartéis continua a ser uma chaga no país. Desde 2006, os conflitos entre organizações criminosas já causaram mais de 450 mil mortos e mais de 100 mil desaparecidos, de acordo com números oficiais.