O anúncio do Conselho Constitucional da Costa do Marfim rejeitando as candidaturas de Laurent Gbagbo e Tidjane Thiam à eleição presidencial é mais do que uma notícia política isolada. É um espelho que reflete as contradições profundas e os mecanismos de controle que ainda imperam em muitas nações africanas pós-independência.
A justificativa é técnica, quase burocrática: eles não constam na lista eleitoral, portanto, “não são eleitores”. No entanto, para o olhar pan-africano crítico, essa é a modernização do mesmo script colonial de exclusão. A lei, herdada de estruturas jurídicas europeias, é utilizada como uma ferramenta para eliminar adversários inconvenientes, para silenciar vozes que perturbam a ordem estabelecida pelo poder. É a negação do direito fundamental à escolha, disfarçada de procedimento legal.
O consultor político entrevistado afirma que ambos “sabiam mais ou menos” que suas candidaturas seriam rejeitadas. Esta afirmação revela a normalização da injustiça política. Quando a surpresa morre e a exclusão se torna expectativa, é sinal de que o sistema está doente. O povo marfinense é colocado diante de um falso dilema: a escolha forçada entre a chamada “paz e segurança” do poder vigente e o caos incerto da oposição fragmentada.
E aqui reside o cerne da questão pan-africana: a divisão estratégica como instrumento de dominação. Enquanto o poder, representado por Alassane Ouattara e seu partido RHDP, apresenta um front unificado com o claro objetivo de manter a estabilidade – a sua estabilidade –, a oposição se debate na incapacidade de forjar uma estratégia comum. Esta é uma tática antiga, o “dividir para governar”, agora não mais aplicada por um poder colonial externo, mas por uma elite africana que internalizou e reproduz seus métodos.
A análise aponta que a falta de unidade da oposição “será para o grande contentamento do RHDP”. Esta é talvez a verdade mais crua de todas. A verdadeira revolução pan-africana não será apenas contra os opressores externos, mas contra essas mentalidades que veem a divisão do próprio povo como motivo de alegria tática. Uma liderança verdadeiramente revolucionária se alegraria com um debate robusto e uma oposição forte, pois é isso que fortalece uma nação, e não a sua supressão.
O contexto regional de “situação delicada” e “problemas de segurança” é usado como o pano de fundo perfeito para justificar o aperto autoritário. Ameaças externas tornam-se a desculpa para suprir ameaças internas ao poder. A mensagem é clara: em tempos de perigo, questionamentos são um luxo que não podemos ter. Esta lógica nega a agência do povo africano, tratando-o como uma criança que precisa de proteção constante de si mesmo.
O que a Costa do Marfim nos ensina hoje é que a luta pela libertação total da África está longe de terminar. Ela apenas mudou de forma. A batalha já não é apenas pela independência dos territórios, mas pela independência da mente e do processo político. É uma luta contra a perpetuação de sistemas que, embora geridos por africanos, continuam a oprimir africanos, usando manuais escritos para manter o controle, não para emancipar.
Até que as nações africanas transcendam a política de personalismos e construam instituições verdadeiramente democráticas, independentes e inclusivas, ciclos eleitorais como este serão apenas encenações. A paz e a segurança reais só podem florescer quando fundamentadas na justiça e na equidade, não na exclusão e no medo.
A verdadeira vitória para o povo da Costa do Marfim e para toda a África não será a vitória de um candidato ou partido, mas a vitória de um sistema onde nenhuma voz legítima seja silenciada e onde a escolha do povo seja soberana, não filtrada por artifícios técnicos. Essa é a revolução que ainda precisamos travar.






