Numa altura em que o tabuleiro geopolítico global se reconfigura a uma velocidade alucinante, uma notícia vinda do Corno de África merece uma reflexão mais profunda do que aquela que a simples análise diplomática nos oferece. O autoproclamado governo do Somaliland, território que luta pelo reconhecimento internacional desde 1991, declarou-se recentemente disposto a conceder aos Estados Unidos da América um acesso “exclusivo” às suas riquezas minerais e às suas bases militares.
À primeira vista, é apenas mais um movimento na complexa dança das relações internacionais: um ator não-estatal à procura de legitimidade oferece ativos estratégicos a uma superpotência em troca de um lugar à mesa. Mas, para quem olha para África com olhos de ver, esta notícia soa a um eco antigo, a um disco riscado que não para de tocar a mesma melodia: a do africano que, em busca de proteção ou reconhecimento externo, dispõe do seu território e dos seus recursos como se de uma moeda de troca se tratasse, alienando o que deveria ser a base da sua soberania futura.
O ministro da Presidência do Somaliland, Khadar Hussein Abdi, foi claro na sua entrevista à AFP: “Acreditamos que chegaremos a um acordo com os Estados Unidos”. Esta convicção não nasce do vazio. Semanas antes, o presidente do território, Abdirahman Mohamed Abdullahi, já tinha estendido o mesmo tapete vermelho a Israel, oferecendo um “acesso privilegiado” a minerais e não fechando a porta à instalação de uma base militar israelita, num “parceria estratégica” a ser assinada em breve. A dança é a mesma; os parceiros é que vão mudando conforme o vento sopra.
É aqui que a história se torna verdadeiramente sintomática. O Somaliland, numa luta desesperada pela sobrevivência e reconhecimento num mapa que o ignora, replica o velho adágio: “se não posso competir, entrego a praça ao inimigo do meu inimigo”. Ou, neste caso, entrego a praça a qualquer um que me queira reconhecer. A estratégia é a do “salve-se quem puder”, onde o futuro do território e do seu povo é hipotecado a potências estrangeiras que vêem no Corno de África apenas um ponto estratégico para as suas próprias guerras comerciais e geopolíticas.
É impossível não traçar um paralelo com a história recente do continente. O que vemos no Somaliland é o mesmo fenómeno que levou, décadas atrás, vários países africanos a assinarem tratados de defesa e exploração mineral em troca de migalhas de apoio político. Djibuti, o vizinho incómodo, é o exemplo perfeito dessa realidade: alberga bases militares de potências como os EUA, a China e a França, tornando-se um ponto estratégico vital na entrada do estreito de Bab Al-Mandab. A diferença é que Djibuti é um Estado reconhecido. O Somaliland, na sua ânsia de o ser, parece disposto a oferecer ainda mais, a começar por onde Djibuti já estabeleceu o modelo.
A questão que se coloca é: até que ponto esta estratégia de “atribuir África aos estrangeiros” é, de facto, uma estratégia vencedora para os povos africanos? O que ganha realmente um povo quando o seu território se transforma num arquipélago de bases militares estrangeiras e as suas riquezas minerais são geridas a partir de Washington ou Telavive? Ganha-se, talvez, o reconhecimento de um punhado de burocratas na ONU, mas perde-se a capacidade de decidir o próprio destino. Perde-se a soberania económica, que é a espinha dorsal de qualquer independência política verdadeira.
Há quem veja nisto uma jogada de mestre: usar a cobiça alheia para alcançar um objetivo nacional. É o velho princípio de “dividir para reinar”, agora aplicado por quem sempre foi dividido. Ao jogar Israel contra os EUA, e ambos contra a Somália, o Somaliland tenta barganhar o seu lugar ao sol. Mas o risco é enorme. Ao oferecer “acesso exclusivo” a recursos e território, Hargeisa pode estar a trocar um protetorado informal somali por um protetorado formal americano ou israelita. A dependência mantém-se; apenas muda a bandeira que a simboliza.
Os apelos de senadores republicanos como Ted Cruz para que Washington reconheça o Somaliland mostram que o jogo está em curso. Mas a hesitação de Donald Trump, que disse que a sua administração vai “estudar” a questão, revela a complexidade do tema. Os EUA sabem que reconhecer o Somaliland significa atirar um fósforo para um barril de pólvora regional, com repercussões na Somália, na União Africana e no mundo árabe.
No meio deste grande xadrez, fica a imagem de um líder africano a oferecer as chaves da sua casa ao primeiro estrangeiro que lhe bater à porta, na esperança de que este lhe chame pelo nome. É a imagem de uma África que, em pleno século XXI, ainda parece acreditar que a sua salvação virá de fora, e não da complexa, difícil e indispensável construção de consensos internos e de um projeto de nação que, primeiro, se reconheça a si mesmo.
Enquanto o mundo aplaude ou critica a jogada, o povo do Somaliland fica a assistir, esperando que quem vendeu a terra não se tenha esquecido de reservar um lugar para eles.






