A data exata da chegada dos portugueses ao arquipélago de Cabo Verde permanece incerta até aos dias de hoje. Segundo a tradição histórica, as ilhas foram descobertas entre 1460 e 1462.
Vários navegadores reivindicaram a sua descoberta em diferentes momentos:
Vicente Dias (1445);
Luís de Cadamosto (1456);
António da Noli (1460);
Diogo Gomes (1460);
Diogo Afonso (1462).
Tantos descobridores para um grupinho de ilhas ?
O Marco Definitivo: A Colonização
Embora a descoberta seja atribuída a estes navegadores, o marco incontestável que solidificou a posse portuguesa foi a fundação do primeiro assentamento permanente em 1462: a cidade de Ribeira Grande (Cidade Velha), na ilha de Santiago, por iniciativa de António da Noli.
A descoberta de Cabo Verde não foi o feito de uma única pessoa, mas um esforço cumulativo. Cadamosto é associado a um avistamento prévio, Diogo Gomes e António da Noli são os descobridores oficiais das primeiras ilhas, e Diogo Afonso completou a missão, mapeando todo o arquipélago.
Antes de Portugal reclamar estas terras… havia sussurros. Mapas que mostravam ilhas onde não deviam existir. Navegadores que juraram ter visto terra no meio do nada. Mas quem as marcou primeiro? E por que esses nomes desapareceram?
Dizem que, muito antes dos portugueses, um barco mourisco fugiu da costa da Mauritânia. Levado por ventos traiçoeiros, terá avistado estas praias. Sobreviveram? Ou foram tragados pelo mar, levando consigo a verdade?
Histórias de marinheiros árabes e de navegadores anónimos que, arrastados por tempestades, teriam avistado terras a oeste da costa africana.
Os geógrafos da Antiguidade Clássica (especificamente Strabo e Ptolomeu) tinham conhecimento das ilhas do Atlântico (presumivelmente o arquipélago de Cabo Verde).
Cabo Verde está referenciado nas obras De Chorographia de Pompónio Mela e Historia Natural de Plínio, o Velho. Eles viveram no século I d.C. (depois de Cristo).
Estes autores designaram as ilhas como “Gorgades”.
Segundo Plínio, o grego Xenofonte de Lâmpsaco afirmava que as Gorgades (Cabo Verde) se situavam a dois dias de viagem de “Hesperu Ceras” – hoje conhecido como Cabo Verde do Senegal.
Plinio il Vecchio, Naturalis Historia: Libro 06, Paragrafi 154 – 204, pag 10.
As Gorgades são mencionadas no Mapa de Fra Mauro, um mapa-múndi excecional realizado pelo monge cartógrafo italiano Fra Mauro entre 1448 e 1453. O mapa-múndi de Fra Mauro é uma obra maior da cartografia medieval e, embora se centre no Velho Mundo, integra os conhecimentos geográficos da época, nomeadamente os provenientes dos relatos de exploradores e mercadores como Marco Polo.
Os Jalofos de Santiago: Um Enigma Histórico nos Alvores de Cabo Verde
Ao folhear obras históricas, por vezes deparamo-nos com pequenas notas, quase de passagem, que têm o poder de abalar as narrativas consolidadas. É o que acontece com uma pérola encontrada na “Corografia Cabo-Verdiana, ou Descrição Geográfico-Histórica”, uma obra de 1841 da autoria de Chelmecki.
Neste livro, o autor regista, de forma surpreendentemente matter-of-fact – sem rodeios ou grandes dramatizações –, uma tradição oral então vigente em Cabo Verde: a de que a ilha de Santiago já era habitada por Jalofos (o povo Uólofe) no momento da sua descoberta pelos portugueses.
Esta simples afirmação é revolucionária. Desafia a ideia convencional de que as ilhas de Cabo Verde estavam completamente desabitadas quando Diogo Gomes e António da Noli lá chegaram na década de 1460. Em vez de uma “tabula rasa”, Santiago poderá ter tido uma comunidade humana pré-existente.
Mas quem são estes Uólofes? A sua história remonta aos séculos XII-XIII, quando migraram do território do atual Mali para o que é hoje o Senegal, após o declínio do Império do Gana. As suas próprias narrativas orais apontam para origens étnicas no povo Fula.
A Contranarrativa do Padre Feijoo
No livro “Les Iles de l’Afrique” (As Ilhas de África), na página 187, encontramos uma referência a um escritor chamado Feijoo. Este relato, provavelmente referindo-se ao Padre Benito Jerónimo Feijoo, um famoso ensaísta espanhol do século XVIII, apresenta uma narrativa radicalmente diferente para a origem dos primeiros habitantes de Santiago.
Segundo Feijoo, na época da descoberta, a ilha já não era deserta. Ele afirma que Santiago era habitada por um grupo de Yolofs (ou Wolof, um grupo étnico da região do Senegal e Gâmbia). A sua presença na ilha teria sido o resultado de um evento dramático: terão sido apanhados por uma tempestade ou por ventos fortes depois de se terem lançado ao mar numa fuga desesperada aos seus vizinhos e inimigos, os Féloups (provavelmente os Felupes ou Flups, outro grupo étnico da mesma região).
Em resumo, Feijoo sugere que os primeiros “descobridores” não foram os portugueses, mas sim africanos que, fugindo da guerra e da perseguição, foram parar acidentalmente às costas de Santiago, muito antes de 1460.
Transição para o Nome “Cabo Verde”.
Quando os portugueses redescobriram as ilhas, batizaram-nas de “Cabo Verde” em referência ao Cabo Verde no Senegal (o ponto mais ocidental da África continental).
O nome “Gorgades” caiu em desuso, mas ainda aparece em mapas antigos, especialmente os baseados em fontes clássicas.
O Mapa Proibido: O Enigma das Ilhas que Esperavam 47 Anos para Serem Descobertas
No mapa do espanhol, Mecia de Viladestes , de 1413, no sul das Ilhas Canarias, um arquipélago surge com clareza meridiana: As Illas Gorgadas, ou Illas de Gades.
O mapa de Mecia de Viladestes de 1413, também conhecido como Carta Naútica de Mecia de Viladestes ou Portolan chart by Mecia de Viladestes, é actualmente conservado na Bibliothèque nationale de France (BnF) em Paris, sob a signatura GE AA-566 (RES). Pode ser consultado online em alta definição através do sítio oficial da BnF.
As Gorgades, ou Illas de Gades.
O problema? Essas ilhas, que hoje conhecemos como o arquipélago de Cabo Verde, só seriam oficialmente «descobertas» pelos navegadores Diogo Gomes e António da Nola ao serviço da Coroa Portuguesa em… 1460.
Quarenta e sete anos depois.
Como pode um lugar existir num mapa antes de ser encontrado? Este não é um erro de datação ou uma fraude. É um portal para uma história de segredos, intuição genial e conhecimentos perdidos no nevoeiro do tempo.
O mapa de Viladestes não é um anacronismo. É um farol. Ilumina não um erro histórico, mas uma verdade profunda: a fronteira entre o mito e a realidade é ténue. E por vezes, a intuição do génio, alimentada pelos sussurros dos que se aventuraram na escuridão, consegue desenhar o mundo antes do mundo ser oficialmente conhecido. As Ilhas de Gades não foram descobertas em 1460. Elas simplesmente esperaram, pacientemente no meio do Atlântico, que a coragem dos homens alcançasse a visão dos seus cartógrafos.
As «descobertas» não eram, muitas vezes, viagens cegas para o desconhecido. Eram missões de busca e confirmação, guiadas por mapas secretos, rotas guardadas a sete chaves e conhecimentos considerados segredo de Estado.
A versão oficial, escrita pelos vencedores e colonizadores, privilegia a “descoberta” e o “povoamento”. Mas as tradições orais guardam memórias mais antigas, fragmentos de histórias de movimento, fuga e resistência que ocorriam muito antes da chegada dos europeus.
A próxima vez que pensar em Cabo Verde, lembre-se deste enigma. Para além da narrativa da descoberta portuguesa, existe a possibilidade de um capítulo anterior.






