Há um jogo antigo que se joga nos corredores do poder. Um jogo de palavras medidas, de nuances calculadas, de silêncios que falam mais alto do que gritos. E quando a voz vem do mais alto púlpito do mundo, cada sílaba é um movimento neste xadrez celestial. A recente declaração do Papa Leo XIV sobre Gaza não é exceção. E deixa no ar um sabor amargo de cepticismo.

Diz ele que o sofrimento é “impossível de ignorar”. Mas será impossível, ou simplesmente inconveniente? A Santa Sé, uma das instituições mais antigas e politicamente astutas do globo, sabe melhor do que ninguém o peso das palavras. E a palavra “genocídio” é uma bomba. Uma bomba que destrói pontes diplomáticas, que queima influência, que aliena aliados poderosos.

É, portanto, profundamente conveniente esconder-se atrás da “complexidade técnica”. É o refúgio perfeito para a inação moral. Enquanto organizações especializadas, inclusive israelitas, já não têm dúvidas em usar o termo, o Vaticano escolhe a linguagem ambígua da política externa. É a linguagem que não compromete, que não acusa, que não condena. É a linguagem que mantém as portas abertas… para todos os lados.

Há um abismo entre reconhecer a dor e ter a coragem de nomear o carrasco. O primeiro é um gesto de caridade vazia, um lugar-comum moral que não ofende ninguém. O segundo é um acto de profecia, um incómodo, um risco. O Papa escolheu a caridade vazia.

Será verdadeira preocupação pastoral, ou é o cálculo geopolítico a ditar os termos? A Santa Sé tem relações delicadas a gerir, interesses a proteger, um papel de mediador a sustentar. Condenar inequivocamente um lado poderia inviabilizar esse papel. Mas a que custo? O custo é a credibilidade moral. O custo é parecer mais preocupado com o equilíbrio do poder do que com o grito dos inocentes.

Pedir ao mundo para “não se tornar insensível” soa a hipocrisia quando a própria declaração é um exercício de distanciamento clínico. É como observar um incêndio de uma torre de marfim, descrevendo meticulosamente as chamas, a cor do fumo, a temperatura do ar, mas recusando-se a gritar “Fogo!” com toda a força dos pulmões.

A dúvida insinua-se: será que o sofrimento de Gaza é, na verdade, fácil de ignorar quando colocado na balança contra os interesses do Estado do Vaticano? A fé exige integridade. A política exige compromisso. Nesta declaração, parece claro qual destas duas forças saiu vitoriosa. E a sombra que isso projecta é longa e obscura.