A devastação da Faixa de Gaza, resultado de meses de intenso conflito militar, está a ser encarada pelo governo israelense não como uma tragédia humanitária, mas como uma oportunidade de negócio imobiliário. Bezalel Smotrich, ministro das Finanças de Israel, descreve publicamente o território palestiniano como uma “mina de ouro imobiliária” e revela negociações com os Estados Unidos para a sua divisão e exploração económica no pós-guerra.

Esta visão, que ignora por completo o sofrimento da população civil e as normas internacionais, não é nova, mas ganhou contornos concretos numa conferência em Telavive. Smotrich declarou que “já iniciou negociações com os americanos” sobre como dividir o enclave, referindo que existe um “plano de negócios na mesa do presidente Donald Trump”.

A Lógica por Trás da “Oportunidade”: Demolição como Primeira Fase

Smotrich apresentou uma analogia chocante: a guerra em Gaza como um projeto de “renovação urbana”. Na sua intervenção, afirmou:

A Fase de Demolição estaria concluída: a ofensiva militar israelense, que dizimou infraestruturas e habitações, é descrita como a “primeira fase da renovação”. A etapa seguinte, na sua visão, é a construção de novos empreendimentos, que ele considera ser “mais barato”. Esta construção não seria para repor a vida dos palestinianos deslocados, mas para criar “novas comunidades judaicas” erguidas sobre os escombros dos lares palestinianos.

Para compensar os custos da guerra, Smotrich sugeriu que Israel e EUA precisam de “dividir a terra em percentagens” e partilhar futuros lucros com a “venda de terras em Gaza”. Esta abordagem trata um território ocupado como um bem transacionável, ignorando o seu estatuto legal e a vontade do seu povo.

O Plano Americano: A “Riviera do Médio Oriente” de Trump

A visão de Smotrich alinha-se perfeitamente com propostas anteriormente feitas por Donald Trump. Em fevereiro, Trump propôs publicamente expulsar os mais de dois milhões de palestinianos de Gaza, através de um processo alegadamente “voluntário” que críticos temem ser uma limpeza étnica forçada.

A ideia seria transformar o território numa “Riviera do Médio Oriente”, um complexo turístico de luxo administrado pelos Estados Unidos. Num gesto revelador, Trump chegou a publicar um vídeo gerado por inteligência artificial mostrando uma Gaza fictícia com estátuas douradas de si próprio e líderes americanos e israelitas em espreguiçadeiras.

De acordo com informações divulgadas, esta ideia não foi abandonada. Um documento interno da administração Trump detalharia um plano para colocar Gaza sob controlo americano por uma década, durante a qual investidores públicos e privados desenvolveriam projectos comerciais e turísticos, requerendo a deslocalização temporária ou permanente da população.

As Reacções Internacionais: Condenação e Ameaça de Sanções

Esta postura provocou uma vaga de condenação internacional e ampliou o isolamento de Israel.

A União Europeia reafirmou o apoio à solução de dois Estados e classificou as declarações como inaceitáveis. A UE propôs formalmente sanções contra ministros israelitas, incluindo Smotrich. Estas sanções implicariam o congelamento de bens na Europa e a proibição de entrada no espaço Schengen.

Palestinianos e a comunidade árabe rejeitaram veementemente estes planos, defendendo que Gaza deve ser administrada por uma liderança palestiniana após o conflito. Smotrich é já persona non grata em vários países, estando proibido de entrar no Reino Unido, Canadá, Austrália e outros devido ao seu repetido incitamento à violência contra palestinianos.

A Realidade no Terreno: Genocídio e Crise Humanitária

Estas discussões sobre imobiliário de luxo ocorrem num cenário de horror indescritível. Enquanto líderes falam em percentagens e resorts, a população de Gaza enfrenta baixas massivas, deslocamento total e uma crise humanitária catastrófica.

Um relatório de uma comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu recentemente que “um genocídio está a acontecer em Gaza”, citando o deslocamento forçado como um dos elementos avaliados. Israel rejeitou veementemente o relatório, classificando-o de tendencioso e mentiroso.

Conclusão: A Ética do Silêncio é Cumplicidade

A narrativa de “boom imobiliário” em Gaza não é apenas uma fantasia morbidamente cínica de figuras radicais. É uma janela para uma agenda política perigosa que normaliza a expulsão populacional e a anexação territorial disfarçada de desenvolvimento económico.

Ao enquadrar a destruição massiva de um território como uma “fase de demolição” necessária, estes líderes procuram dessensibilizar a opinião pública internacional para o custo humano real e redefinir a violência extrema como um mero preâmbulo para negócios lucrativos.

A revelação de que estes planos estão a ser seriamente discutidos entre governos é um teste definitivo à moralidade global. O que está em jogo não é apenas o futuro de Gaza, mas a defesa dos princípios fundamentais do direito internacional e da humanidade comum. O silêncio, perante tal linguagem, não é neutralidade — é cumplicidade.