Introdução
A recente polémica envolvendo o deputado Abraão Vicente e o artista cabo-verdiano radicado nos Estados Unidos, Wise Henrique, trouxe ao debate público o papel da arte como instrumento de crítica social. Wise Henrique posiciona-se como uma voz corajosa, supostamente dedicada a expor as verdades desconfortáveis do poder. No entanto, uma análise mais atenta revela uma preocupante hipocrisia: o mesmo artista que não hesita em fazer ataques pessoais a Abraão Vicente mantém um silêncio absoluto sobre figuras como Francisco Carvalho e o Presidente da República.
1. O Ataque a Abraão Vicente: Para Além da Crítica Política
Wise Henrique partilhou um vídeo com críticas contundentes a Abraão Vicente, que respondeu classificando o artista como “o homem mais cobarde de Cabo Verde” e ameaçando processá-lo. A reação do público foi imediata: Wise Henrique foi elevado a herói da liberdade de expressão.
No entanto, o artista não se limitou à crítica política. Wise Henrique tem recorrido a ataques à vida privada, insinuando e afirmando abertamente que Abraão Vicente é homossexual, utilizando a orientação sexual como arma de arremesso. Esta estratégia é particularmente perversa: a orientação sexual é uma questão privada, irrelevante para a avaliação do desempenho político. A homofobia é a arma dos que não têm argumentos.
A insistência neste tipo de ataque revela um ódio que transcende a divergência política. Abraão Vicente, vindo de origens humildes, construiu um percurso notável como sociólogo, professor, escritor, artista plástico e político. Para Wise Henrique, radicado nos Estados Unidos e longe das consequências dos seus atos, atacar figuras mediáticas tornou-se uma forma de ganhar relevância.
2. O Silêncio Sobre Francisco Carvalho
Francisco Carvalho é o atual presidente da Câmara Municipal da Praia e recém-eleito presidente do PAICV, o maior partido da oposição em Cabo Verde. Nos últimos meses, tem estado no centro de uma tempestade judicial que qualquer crítico social deveria denunciar.
O autarca da capital é investigado pelo Ministério Público por suspeitas de:
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Falsificação de documentos
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Participação ilícita em negócio
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Defraudação de interesses públicos patrimoniais
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Corrupção ativa e passiva
No âmbito destas investigações, foram realizadas buscas na Câmara Municipal da Praia, com apreensão de documentos e terrenos em zonas nobres da capital. Mais grave: Francisco Carvalho foi notificado para ser constituído arguido, mas faltou à audiência no Ministério Público, tendo viajado para Lisboa na véspera. Novas buscas foram necessárias, tendo sido necessário arrombar o portão dos Paços do Concelho para que as autoridades cumprissem o mandado judicial.
Perante factos desta gravidade, onde está Wise Henrique? Onde estão as músicas de denúncia? O silêncio é absoluto.
3. O Silêncio Mais Gritante: O Presidente e os 310 Contos
Há um outro silêncio que torna a hipocrisia ainda mais escandalosa: Wise Henrique nunca disse uma palavra sobre a polémica envolvendo o Presidente da República, José Maria Neves, e a atribuição de um subsídio mensal de 310 contos (310 mil escudos) à sua esposa, Débora Carvalho.
Trata-se de dinheiro público para sustentar uma pessoa que ninguém elegeu. A Primeira-Dama não exerce função constitucional, não foi votada, não presta contas. No entanto, recebe mensalmente 310 contos, num país onde professores e enfermeiros ganham uma fração desse valor.
Onde está a música de protesto contra este privilégio? Onde está a voz corajosa a questionar a legitimidade de uma pessoa não eleita receber dinheiro dos impostos de todos os cabo-verdianos? O silêncio é absoluto.
4. A Hipocrisia Exposta
A comparação é devastadora:
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Abraão Vicente: deputado legitimamente eleito, ex-ministro, sem acusações de corrupção ou processos judiciais. Wise Henrique dirige-lhe artilharia pesada, incluindo ataques homofóbicos à sua vida privada.
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Francisco Carvalho: autarca com processos concretos por corrupção, que foge do país para não ser constituído arguido, cuja câmara é alvo de buscas com arrombamento. Wise Henrique silencia.
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Presidente da República: permite que a esposa receba 310 contos mensais sem legitimidade democrática. Wise Henrique silencia.
Esta postura seletiva é a definição clássica de hipocrisia. Wise Henrique não é um crítico corajoso do poder; é um crítico conveniente, que escolhe os seus alvos com base em critérios que nada têm a ver com a defesa do interesse público.
Os ataques homofóbicos a Abraão Vicente são a prova de que o ódio é pessoal, não político. A homofobia é a arma dos que não têm argumentos.
5. O Papel da Arte e a Verdade Inconveniente
Quando um artista se apresenta como crítico social e utiliza a sua plataforma para atacar figuras públicas, assume um compromisso com a verdade que não pode ser seletivo. A crítica social que merece esse nome denuncia a injustiça venha de onde vier.
Wise Henrique não cumpre este requisito. A sua crítica é seletiva, os seus alvos são escolhidos a dedo, o seu silêncio é estrategicamente orientado.
No debate público, o silêncio não é neutro. Ao silenciar sobre Francisco Carvalho e sobre os 310 contos da Primeira-Dama, Wise Henrique diz que estes casos não merecem a sua atenção. Esta é uma escolha política que revela mais sobre ele do que todas as suas críticas a Abraão Vicente.
Conclusão
Wise Henrique não é o defensor corajoso da verdade que os seus fãs acreditam. É um crítico conveniente que escolhe os seus alvos com base em critérios alheios ao interesse público.
Enquanto Abraão Vicente — um deputado legitimamente eleito, que exerceu funções governamentais — é atacado com base na sua suposta orientação sexual, um facto irrelevante para a avaliação política, Francisco Carvalho — um homem com processos sérios por corrupção — e o Presidente da República — que permite que a sua esposa receba 310 contos mensais sem legitimidade democrática — recebem do artista o melhor dos presentes: o silêncio.
Esta postura seletiva, esta hipocrisia, esta homofobia instrumentalizada ficam agora expostas. Wise Henrique pode continuar a fazer vídeos, a atacar Abraão Vicente, a posicionar-se como voz corajosa. Mas a partir de agora, quem o ouve sabe que há limites para a sua coragem. Sabe que há alvos que ele não toca. Sabe que há poderosos que merecem o seu silêncio cúmplice.
Se Wise Henrique quer realmente ser uma voz de consciencialização, que comece por abandonar a homofobia como arma de ataque. Que cante sobre Francisco Carvalho. Que cante sobre os terrenos apreendidos na Praia. Que cante sobre o autarca que fugiu para Lisboa para não ser constituído arguido. Que cante sobre o arrombamento dos Paços do Concelho. Que cante sobre os 310 contos mensais para a Primeira-Dama.
Se não o fizer, fica claro que a sua “coragem” é apenas mais um instrumento ao serviço de uma agenda pessoal. Wise Henrique não é um crítico do poder, mas sim um crítico de alguns poderosos. A hipocrisia tem voz, tem palco e tem quem a aplauda — mesmo quando essa voz utiliza a homofobia como instrumento de ataque e silencia perante casos graves de corrupção e privilégios sem legitimidade.
O mito do herói cai por terra. Resta a realidade nua e crua: um artista que usa a capa da coragem para atacar quem lhe convém, que recorre à homofobia para ferir o adversário, e que silencia, covardemente, sobre quem lhe interessa proteger.






