A Revolta de Ribeirão Manuel, ocorrida em 12 de novembro de 1910, é um marco fundamental na história da resistência cabo-verdiana contra a exploração colonial portuguesa. Liderada pela corajosa Ana da Veiga, conhecida como Nhanha Bomgolom, esta revolta destacou-se pelo protagonismo das mulheres camponesas que, em condições deploráveis, desafiaram o sistema opressor dos “morgados” (proprietários de terras) e reivindicaram seus direitos com bravura e determinação. Este artigo examina o contexto, os acontecimentos e o legado desta revolta, que permanece um símbolo de resistência e igualdade em Cabo Verde.

Contexto Histórico e Causas da Revolta

No início do século XX, Cabo Verde era uma colónia portuguesa onde a terra estava concentrada nas mãos de poucos proprietários, os “morgados”, que arrendavam parcelas a famílias camponesas para exploração agrícola e pastoril. Estas famílias, compostas majoritariamente por rendeiros, trabalhavam em condições extremamente difíceis, enfrentando secas, más colheitas e o pagamento de rendas abusivas. Os morgados impunham práticas arbitrárias, como aumentos exagerados nas rendas, demolição de casas por dívidas não pagas e apreensão de bens dos rendeiros.

A economia local dependia fortemente da purgueira, um arbusto cujas sementes eram exportadas para a Europa para produção de sabão e óleo para iluminação. A colheita destas sementes era realizada principalmente por mulheres e crianças, que recebiam salários ínfimos pelo trabalho. Em tempos de seca e escassez, a penúria tornava-se insustentável, levando muitas mulheres a colher sementes ilegalmente para sobreviver. Esta prática, considerada “furto” pelos morgados, foi o estopim para a revolta.

O Papel de Ana da Veiga (Nhanha Bomgolom) e a Liderança Feminina

Ana da Veiga, apelidada de Nhanha Bomgolom, emergiu como a líder natural da revolta. Era uma camponesa respeitada na comunidade de Ribeirão Manuel, na ilha de Santiago, que recusou-se a aceitar a exploração dos morgados e a prisão de outras mulheres. Sua liderança foi catalisadora para a ação coletiva. Em novembro de 1910, quando um grupo de mulheres foi preso pela polícia rural sob ordens dos proprietários de terras por colher sementes de purgueira ilegalmente, Nhanha Bomgolom organizou uma marcha popular para libertá-las.

A revolta foi marcada por um espírito de união e igualdade. Durante a marcha em direção à prisão, os manifestantes gritavam: “Aqui não há negro, não há branco, não há rico, não há pobre… somos todos iguais!” e cantavam: “Omi pedra, mudjer matchado, mininus tudu ta djunta pedra” (homens com pedras, mulheres com machados e crianças todas a juntar pedras). Este lema simbolizava a resistência unificada de toda a comunidade, independentemente de género, idade ou condição social.

Eventos da Revolta e Repressão Colonial

A revolta começou em 12 de novembro de 1910, apenas um mês após a proclamação da República em Portugal. O novo governador português havia chegado a Cabo Verde em 14 de novembro, mas a revolta eclodiu antes de sua posse formal. Em resposta às prisões das mulheres, a população rural revoltou-se, enfrentando a polícia rural com pedras, machados e facas. Os soldados, surpreendidos pela ferocidade dos manifestantes, retiraram-se feridos, e os aldeões libertaram as mulheres presas, saqueando armazéns de purgueira como acto de desafio.

A repressão colonial foi brutal. O governador deslocou-se para a região com um canhão de guerra, causando terror nos povoados. Outras figuras envolvidas incluíram um padre local, que defendeu as mulheres e foi acusado de incitar o protesto, e o comandante da polícia rural.

Significado Histórico e Legado

A Revolta de Ribeirão Manuel insere-se numa longa tradição de resistência rural em Cabo Verde, que inclui outras revoltas históricas. Todas estas revoltas compartilharam motivações semelhantes: a luta contra a exploração dos morgados e a defesa do direito à terra e a condições de vida dignas. O protagonismo feminino nesta revolta destacou o papel central das mulheres cabo-verdianas na resistência social, desafiando não só o colonialismo, mas também as normas de género da época.

O legado da revolta permanece vivo na cultura cabo-verdiana. Uma música popular celebra os eventos de 1910, perpetuando a memória da luta. Além disso, a localidade de Ribeirão Manuel homenageia Nhanha Bomgolom com uma praça e um monumento, simbolizando o “inconformismo e a afirmação da região de Santiago Norte”.

Conclusão

A Revolta de Ribeirão Manuel é mais do que um evento histórico; é um testemunho da coragem e resiliência do povo cabo-verdiano, especialmente das mulheres que lideraram a luta por justiça e igualdade. Sua história inspirou gerações posteriores e continua a ser um símbolo de afirmação cultural e social. Em tempos contemporâneos, onde as lutas por direitos sociais e género permanecem relevantes, a revolta serve como um lembrete poderoso de que a união e a determinação podem desafiar até os sistemas mais opressores.