“É decerto etíope; os lábios são grossos…” etc.

Esta observação foi feita por Gustave Flaubert durante a sua extensa viagem pelo Egito e Médio Oriente, entre 1849 e 1851. É crucial entender que ele não estava a fazer uma afirmação arqueológica ou histórica, mas sim a expressar uma impressão subjetiva e estética, profundamente influenciada pelas teorias raciais e sensibilidades artísticas do século XIX.

Aqui está a passagem completa, mais citada, dos seus cadernos de viagem:

“A Esfinge: olhámo-la durante muito tempo, sem dizer uma palavra… É decerto etíope; os lábios são grossos… o nariz é achatuado; as orelhas são muito grandes e projectam-se para fora. Não foi um grego que fez isto; é uma arte mais séria e austera.”

Análise e Contexto da Citação:

  1. “É decerto etíope”: Na linguagem do século XIX, “etíope” era um termo amplo e muitas vezes impreciso usado pelos europeus para se referir a povos da África Subsaariana, indicando características que eles associavam a uma origem “negróide”. Flaubert estava a categorizar a Esfinge com base na sua perceção visual e nos preconceitos raciais da época, notando traços que considerava radicalmente diferentes do ideal clássico grego.

  2. Um Julgamento Estético, Não um Facto: Flaubert não era historiador. A sua “identificação” baseava-se na perceção pessoal dos danos e da erosão da estátua. A Egiptologia moderna defende, com base em evidências arqueológicas e estilísticas, que o rosto da Esfinge representa muito provavelmente o Faraó Quéfren (c. 2600–2500 a.C.), cujos traços fisionómicos conhecidos por outras estátuas se alinham com a estrutura facial da Esfinge. A destruição do nariz e dos lábios ao longo de milénios alterou profundamente a sua aparência.

  3. Uma Reação ao Idealismo Grego: A sua observação final – “Não foi um grego que fez isto; é uma arte mais séria e austera” – é fundamental. Flaubert contrasta a presença imponente, misteriosa e severa da Esfinge com a arte da Grécia Antiga, que a cultura europeia venerava como o pináculo da beleza idealizada, harmoniosa e humana. Para ele, a Esfinge representava algo mais antigo, primal e sublime.

  4. Uma Perspetiva Orientalista: A visão de Flaubert é um exemplo clássico do que o académico Edward Said mais tarde chamaria de Orientalismo. Flaubert projetou na Esfinge as suas ideias romantizadas, exotizadas e simplistas sobre “o Oriente” (que incluía o Egito). Ele viu-a como a personificação de um Oriente antigo, inescrutável e eterno, em contraste direto com o mundo moderno ocidental.

A Perspetiva Moderna:

Hoje, a observação de Flaubert é entendida não como uma identificação factual das origens da Esfinge, mas como um documento histórico fascinante que revela:

  • O Olhar Europeu do séc. XIX: Como um viajante ocidental interpretava e categorizava culturas estrangeiras através da sua própria lente de preconceitos raciais e artísticos.

  • O Poder da Arte: Como a aparência enigmática da Esfinge provoca interpretações subjetivas há séculos.

  • A Evolução da Egiptologia: A scholarship moderna baseia-se em provas arqueológicas e análise contextual, afastando-se dos julgamentos impressionistas dos viajantes do século XIX.

Em resumo, Gustave Flaubert escreveu mesmo essas palavras em 1849, mas estava a expressar uma impressão pessoal e estética moldada pelas ideologias da sua época, e não a declarar um facto histórico. O seu comentário permanece valioso pelo que nos revela sobre as perceções europeias do Antigo Egito no século XIX.