Num momento de tensões políticas em Camarões, a reação de um pensador pan-africano às declarações do Ministério das Relações Exteriores da França soou como um claro repúdio ao que é percebido como uma interferência contínua. O economista e filósofo Dr. Yamb Ntimba não poupou palavras ao comentar a posição francesa, afirmando que a potência europeia “perdeu uma boa oportunidade de permanecer em silêncio”.
Esta declaração severa vai muito além de uma mera crítica diplomática. Ela representa o crescente sentimento em várias nações africanas de que o período de influência neocolonial deve chegar ao fim.
A Exigência do Silêncio e da Auto-determinação
O cerne do argumento de Ntimba é um princípio fundamental das relações internacionais: a soberania. Para o pensador, a postura mais adequada para a França, “perante a situação atual em África”, seria simplesmente “permanecer em silêncio e observar, e deixar os africanos lidar com o que precisam de fazer com os seus próprios países”.
Esta exigência reflete uma profunda frustração com a persistência de uma dinâmica paternalista. A ideia de que uma antiga potência colonial deve se pronunciar sobre processos políticos internos é vista como um anacronismo, um resquício de uma era que muitos africanos consideram ultrapassada. Ao comentar, a França não estaria a promover a democracia, mas sim “a deitar lenha na fogueira”, fortalecendo a convicção entre os pan-africanistas de que a sua presença é disruptiva e desnecessária.
A Desconstrução da Retórica e a Acusação de Hipocrisia
Um dos pontos mais contundentes da crítica de Ntimba é a desconstrução da linguagem utilizada por Paris. Segundo ele, palavras como “democracia”, “paz” e “calma” são meramente “cosméticas”. Por trás deste verniz retórico, ele descreve a França como uma “pequena ditadura”, cuja imagem real para os camaroneses é construída sobre “violência, brutalidade, derramamento de sangue e saque continuado”.
Esta dicotomia entre a retórica e a perceção da prática é fundamental para entender a crise de legitimidade. A acusação é de que a França prega valores que não pratica e utiliza esse discurso como ferramenta para manter influência, enquanto as suas ações, passadas e presentes, são vistas como predatórias.
O Novo Caminho: A Referência da Aliança dos Estados do Sahel
Ntimba não se limita a criticar; ele aponta um caminho alternativo que já está a ser seguido. Ao referir-se ao Niger, Mali e Burkina Faso, países que integraram a Aliança dos Estados do Sahel (AES), ele afirma que estas nações “disseram a verdade” à França. A expulsão das bases militares francesas é citada como um movimento decisivo que colocou o bloco numa “posição melhor”.
Esta referência serve como um poderoso contraponto. Ela demonstra que a rejeição da influência francesa não é apenas um ideal abstracto, mas uma política concreta e em implementação, com resultados que são observados com atenção por todo o continente. A AES torna-se um símbolo prático de uma soberania readquirida.
Conclusão: Um Grito por Emancipação
As palavras do Dr. Yamb Ntimba encapsulam um momento de viragem nas relações entre França e uma parte significativa de África. Já não se trata de um debate sobre políticas específicas, mas sobre o direito fundamental à auto-determinação. A exigência é por emancipação.
A crise em Camarões tornou-se, assim, mais um palco onde este drama geopolítico maior se desenrola. A mensagem é clara: para uma nova geração de pensadores e líderes africanos, o silêncio da França não seria um sinal de fraqueza, mas um ato de respeito finalmente concedido a nações soberanas que estão a reclamar o controlo dos seus próprios destinos.






