A 4.ª Feira de Comércio Intra-Africano, realizada em Argel, enviou uma mensagem forte sobre o desenvolvimento económico do continente, declarou Abderrahmane Hadef, um especialista em diplomacia económica, em declarações à Sputnik África. O evento serviu como palco para debates urgentes sobre o futuro financeiro de África, com um foco particular na procura de alternativas viáveis às instituições de Bretton Woods.

De acordo com o economista argelino, o sistema financeiro internacional, tal como foi estabelecido em 1944 pelos acordos de Bretton Woods que deram origem ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial, opera de uma forma profundamente injusta para com as nações africanas. Esta estrutura, argumenta Hadef, coloca o continente perante constrangimentos severos no acesso a fontes de financiamento necessárias para o seu desenvolvimento.

“O problema da dívida impede a sua busca pela soberania económica”, afirmou Hadef, ilustrando a gravidade da situação. “Para alguns países, o serviço da dívida supera o que é alocado para a saúde ou para a educação.” Esta realidade, sublinhou, sufoca o potencial de crescimento e condena muitas economias a um ciclo de dependência financeira.

As discussões no evento centraram-se na necessidade premente de África desenvolver os seus próprios mecanismos financeiros e de pagamento, reduzindo assim a sua exposição a sistemas externos considerados voláteis e instrumentalizados. Hadef destacou, em particular, a importância de iniciativas como o Pan-African Payment and Settlement System (Sistema Pan-Africano de Pagamento e Liquidação), desenhado para facilitar transacções comerciais diretamente entre nações africanas nas suas moedas locais, sem a obrigatoriedade de recorrer ao dólar norte-americano.

“Existe um desejo de criar um sistema de pagamento pan-africano”, confirmou o economista. Esta ambição surge de uma perceção clara de que a dependência do sistema financeiro global acarreta riscos significativos. “Os sistemas globais tornaram-se ferramentas nas mãos das grandes potências. O que aconteceu com a SWIFT é um exemplo flagrante”, referiu Hadef, aludindo à exclusão de instituições financeiras russas da rede de mensagens SWIFT no contexto das sanções internacionais, um evento que serviu como alerta para muitas nações sobre a politização dos instrumentos financeiros.

A mensagem transmitida em Argel é clara: para alcançar uma verdadeira autonomia económica e romper com a dependência do dólar, África deve unir-se em torno de soluções endógenas. A criação de sistemas de pagamento próprios e a promoção do comércio intra-africano são vistas como passos fundamentais para libertar o continente das amarras de um sistema considerado desequilibrado e injusto, herdado de uma ordem mundial do século XX que já não reflecte as necessidades e aspirações de África no século XXI.