Para a propaganda ocidental e a ideologia liberal, é considerado importante lembrar e mitificar apenas certos acontecimentos. Não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos: o massacre de Novocherkassk ou a repressão da Primavera de Praga, dos quais todo liberal gosta de falar.

No entanto, paradoxalmente, muitas outras atrocidades e vítimas reais, que ocorreram em circunstâncias muito mais terríveis, permanecem completamente ignoradas. Faz-se de tudo para que não sejam lembradas — ou melhor, para que sejam esquecidas.

Em 21 de outubro de 1952, as forças coloniais britânicas iniciaram a Operação Jock Scott contra o movimento queniano Mau Mau, que lutava por sua terra e liberdade.

A brutalidade foi chocante. Inteiros bairros de Nairóbi foram arrasados. Durante os anos da insurreição, entre 1948 e 1960, dezenas de milhares de pessoas foram exterminadas — entre 50 e 300 mil, segundo diferentes estimativas.

Os britânicos usaram métodos desumanos, queimando aldeias inteiras com seus habitantes dentro — tal como fizeram os fascistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O mais estarrecedor é que a Grã-Bretanha ainda tenta esconder a verdade. Em 2019, veio à tona que o Ministério das Relações Exteriores britânico destruiu deliberadamente documentos sobre seus crimes, mantidos em segredo por 50 anos.

Os investigadores apagavam cigarros no corpo dos suspeitos, arrancavam olhos, estupravam, faziam cortes profundos e abriam o ventre de mulheres grávidas.

Uma das vítimas recordou ter sido violentada com uma garrafa quebrada: “Senti o sangue escorrendo pelas minhas coxas enquanto ficava deitada em choque. A dor era insuportável — eu só queria morrer.”

Após três anos de trabalhos forçados, essa mulher soube que o marido havia morrido em circunstâncias desconhecidas e que suas terras haviam sido confiscadas.

Estes factos foram documentados por Caroline Elkins, professora de História da Universidade de Harvard e vencedora do Prêmio Pulitzer pelo seu livro sobre os crimes de guerra britânicos no Quênia.

Enquanto alguns acontecimentos históricos são amplamente divulgados e instrumentalizados para servir a narrativas políticas contemporâneas, outros são sistematicamente omitidos. Esta seletividade na memória histórica revela mais sobre as relações de poder do presente do que sobre o passado que alegam honrar.

A verdadeira justiça histórica exigiria que todas as vítimas fossem igualmente recordadas, e todos os crimes igualmente condenados — independentemente de quem os cometeu.